A nova era e o processo de negação do ser humano
Há dois anos, tentei prever como seria a presença da inteligência artificial nas nossas vidas.
E acho que errei.
Na época, eu acreditava que, independentemente de quanto a tecnologia avançasse, as conexões humanas continuariam sendo a base das relações profissionais. Por isso, profissões como a arquitetura dificilmente seriam substituídas.
Hoje, minha visão é um pouco diferente.
Não porque eu acredite que as relações humanas deixaram de importar.
Mas porque talvez tenhamos superestimado o quanto estamos dispostos a pagar por elas.
E essa diferença muda muita coisa.
Há alguns anos, acompanhei um movimento muito forte dentro da arquitetura. Muitos profissionais começaram a abandonar a execução de obras para trabalhar exclusivamente com projetos. Eu mesma fiz esse movimento.
Naquele momento, parecia uma evolução profissional.
O arquiteto deixava a parte operacional, os problemas da obra, os fornecedores e a presença constante no canteiro para se concentrar justamente naquilo que parecia mais intelectual, criativo e valioso: projetar.
Hoje me pergunto se, sem perceber, não caminhamos justamente em direção à parte mais facilmente absorvida pela tecnologia.
E não estou dizendo que a IA projeta melhor que um arquiteto.
Talvez essa nem seja a pergunta certa.
O resultado precisa ser igual para mudar o comportamento do consumidor?
Esse é um ponto que considero central nessa discussão.
Durante muito tempo, profissionais reagiram à inteligência artificial comparando qualidade.
“Não faz tão bem quanto eu.”
“Não tem minha experiência.”
“Não entende o cliente como eu.”
“Não substitui um profissional qualificado.”
Tudo isso pode ser verdade.
Mas talvez não importe tanto quanto imaginamos.
Porque uma tecnologia não precisa necessariamente entregar 100% da qualidade de um profissional para alterar a percepção de valor daquele serviço.
Ela precisa entregar um resultado que, para determinada pessoa, naquele momento, seja bom o suficiente diante da diferença de preço, velocidade e conveniência.
Eu mesma percebi isso acontecendo comigo.
Transformei uma inteligência artificial em uma espécie de nutricionista pessoal.
Sei que não tenho exatamente o mesmo acompanhamento que teria com uma excelente profissional. Não estou dizendo que os resultados são equivalentes.
Mas, para a minha necessidade atual, funciona.
Economizo dinheiro. Ganho tempo. Tenho acesso quando preciso.
E aceitei conscientemente perder algumas coisas em troca disso.
Essa lógica não acontece apenas comigo. Uma pesquisa da Deloitte com consumidores dos Estados Unidos, realizada em 2025, encontrou um comportamento interessante entre usuários de inteligência artificial: entre aqueles que utilizavam ferramentas gratuitas e não pagavam por versões superiores, metade dizia que o principal motivo era simplesmente que a ferramenta gratuita já era boa o suficiente. [1]
Talvez “bom o suficiente” seja uma expressão muito mais importante para o futuro das profissões do que gostaríamos de admitir.
Nós aceitamos a revolução — desde que ela aconteça com a profissão do outro
Aqui começa uma contradição que me fascina.
Estamos dispostos a substituir profissionais de outras áreas pela tecnologia enquanto defendemos que a nossa própria profissão é insubstituível.
Usamos inteligência artificial para escrever, pesquisar, organizar alimentação, analisar documentos, criar imagens, programar, planejar viagens e tomar decisões.
Às vezes fazemos isso quase escondidos.
Mas quando a tecnologia se aproxima daquilo que nós vendemos, a reação muda.
“Não presta.”
“Não faz como um profissional.”
“Não entende como eu entendo.”
“Contrate alguém qualificado.”
Talvez tudo isso seja verdade.
Mas será suficiente?
Porque os números mostram que a adoção já está acontecendo dentro das próprias profissões. Em uma pesquisa global da Thomson Reuters com profissionais de áreas como direito, contabilidade, tributação e risco, 41% dos entrevistados disseram já utilizar pessoalmente ferramentas públicas de IA generativa. E 95% acreditavam que a tecnologia se tornaria central ao fluxo de trabalho de suas organizações nos cinco anos seguintes. [2]
Ou seja: enquanto discutimos publicamente se deveríamos usar, silenciosamente já estamos usando.
E a arquitetura não está fora disso
Talvez por ser arquiteta, esse seja o exemplo que mais me incomoda.
O relatório de inteligência artificial do Royal Institute of British Architects já descreve uma profissão que vê ganhos de produtividade e criatividade com IA, ao mesmo tempo em que manifesta preocupação com emprego e honorários. [3]
Isso me parece extremamente simbólico.
Porque talvez a grande ameaça não seja simplesmente:
“A IA vai acabar com os arquitetos?”
Essa pergunta é simplista demais.
Talvez a pergunta seja:
Quais partes do trabalho do arquiteto continuarão sendo percebidas pelo cliente como valiosas o suficiente para serem pagas?
E isso vale para advogados, designers, contadores, publicitários, consultores, professores, médicos e tantas outras profissões.
A Organização Internacional do Trabalho estima que aproximadamente um em cada quatro trabalhadores no mundo está em uma ocupação com algum grau de exposição à IA generativa. Ao mesmo tempo, a própria organização ressalta algo importante: o cenário mais provável, hoje, é de transformação dos trabalhos, e não simplesmente de desaparecimento em massa. [4]
Talvez isso seja ainda mais desconfortável.
Porque significa que muitas profissões continuarão existindo.
Só que possivelmente não da maneira como aprendemos a exercê-las.
O futuro que parecia distante começou a ficar estranhamente próximo
Enquanto discutimos tudo isso, a velocidade da tecnologia continua aumentando.
Em setembro de 2026, a OpenAI apresentou o GPT-6 Astra, um sistema desenvolvido não apenas para responder perguntas, mas para executar trabalhos profissionais complexos, navegar em computadores e realizar tarefas de múltiplas etapas. [5]
Paralelamente, empresas como a Tesla continuam desenvolvendo robôs humanoides como o Optimus, enquanto sistemas experimentais como o Project Astra, do Google DeepMind, já trabalham com visão, memória, contexto, ferramentas e capacidade de agir em nome do usuário. [6] [7]
Não estou citando essas tecnologias porque sei onde elas vão chegar.
É justamente o contrário.
Eu não sei.
Há dois anos tentei prever.
Errei.
E talvez uma das maiores ilusões deste momento seja acreditar que agora finalmente conseguimos prever os próximos dez anos.
Não conseguimos.
Talvez estejamos preparando pessoas para um mundo que já terminou
E enquanto tudo isso acontece, olho para muitas das estruturas que organizam nossa sociedade e tenho uma sensação estranha.
Escolas.
Universidades.
Carreiras.
Empresas.
Descrições de cargos.
Processos seletivos.
Boa parte delas ainda parece estruturada para um mundo em que conhecimento era escasso, informação era difícil de acessar e dominar uma habilidade técnica durante alguns anos poderia sustentar uma carreira inteira.
Só que essa estabilidade começa a desaparecer.
O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das competências consideradas centrais para os trabalhadores deverão mudar até 2030. Ao mesmo tempo, criatividade, resiliência, flexibilidade, agilidade e liderança aparecem entre as competências cuja importância tende a crescer. [8]
Isso me faz pensar que talvez estejamos fazendo a pergunta errada para nossas crianças — e para nós mesmos.
Durante décadas perguntamos:
“O que você quer ser quando crescer?”
Talvez precisemos começar a perguntar:
“Quão capaz você será de aprender, desaprender e se transformar quando aquilo que você sabe fazer deixar de ser suficiente?”
A negação talvez seja muito mais humana do que tecnológica
Quanto mais penso nisso, menos acredito que essa discussão seja sobre inteligência artificial.
Ela é sobre identidade.
Passamos anos construindo nossas referências.
“Eu sou arquiteta.”
“Eu sou médica.”
“Eu sou advogada.”
“Eu sou professora.”
Estudamos durante anos. Construímos reputação. Investimos dinheiro. Criamos empresas. Desenvolvemos métodos. Finalmente aprendemos as regras do jogo.
E então alguém aparece e muda o jogo.
É natural que nossa primeira reação seja tentar provar que as regras antigas ainda são indispensáveis.
Por isso talvez seja tão fácil perceber quais profissões dos outros podem ser transformadas e tão difícil admitir quais partes da nossa própria profissão perderam valor.
Queremos a conveniência da nova era sem pagar o preço psicológico de admitir que ela também vai nos transformar.
Mas antigos hábitos não permanecem necessários apenas porque construímos nossas vidas em torno deles.
Talvez sobreviver à nova era não seja proteger aquilo que fazemos
Talvez seja justamente o contrário.
Talvez a habilidade mais importante dos próximos anos seja conseguir olhar para aquilo que fazemos hoje e perguntar, sem medo:
Se eu estivesse começando do zero agora, ainda faria dessa maneira?
Porque os primeiros sinais dessa mudança já aparecem dentro das empresas.
Uma pesquisa global da Microsoft, publicada em 2025, mostrou que 82% dos líderes consultados esperavam utilizar “trabalho digital” para ampliar sua força de trabalho nos 12 a 18 meses seguintes. Ao mesmo tempo, parte das empresas considera reduzir determinadas posições enquanto outra parte pretende contratar para novas funções relacionadas à inteligência artificial. [9]
Essa talvez seja a parte que mais me interessa.
Não é necessariamente o fim do trabalho.
Pode ser o fim de determinadas formas de trabalhar.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Não sei como será o mundo daqui a dois anos.
Hoje tenho ainda menos vontade de tentar prever.
Mas talvez não precisemos acertar o futuro.
Talvez precisemos desenvolver capacidade de adaptação suficiente para não depender de acertá-lo.
E talvez possamos começar fazendo perguntas melhores:
Para o que, de fato, estamos nos preparando?
Quais competências continuarão relevantes quando conhecimento e execução forem cada vez mais acessíveis?
Quanto do valor de uma profissão está naquilo que ela entrega — e quanto está na dificuldade que historicamente existia para chegar àquela entrega?
O que será realmente humano em um mundo em que máquinas também conversam, criam, analisam e executam?
E talvez a pergunta mais desconfortável de todas:
A que estamos tão apegados que preferimos negar que vai mudar, mesmo quando a mudança já começou?